terça-feira, 28 de abril de 2015

A GRATIDÃO...


Na década de 80 assistiu-se ao nascimento de uma "nova" psicologia que direccionou a reflexão e o esforço empírico para as dimensões positivas do comportamento humano. A Psicologia Positiva, impulsionada por Martin Seligman, Christopher Peterson, Stephen Schueller, Mónica Ardelt, Robert Emmons, Paul Baltes… e tantos outros, passa a apresentar-se como a ciência e as respectivas aplicações que relacionam o estudo das forças psicológicas e das emoções positivas, percebidas e orientadas no sentido de proporcionarem "uma vida boa". Num movimento contrário aos tantos domínios que na investigação psicológica e intervenção terapêutica, ao longo de décadas, sistematicamente atenderam e destacaram os aspectos negativos do comportamento humano, a psicologia positiva avança com a sinalização, o estudo e a promoção das dimensões positivas do comportamento, das forças e das virtudes humanas, tais como a felicidade, a sabedoria, a resiliência, o optimismo, a compaixão, a esperança, a gratidão...

Este novo movimento da ciência psicológica reconhece a gratidão no espaço das dimensões saudáveis e positivas do desenvolvimento humano, definindo-a como uma emoção que se revela no acto do reconhecimento de um benefício, ou seja, quando uma pessoa toma consciência de que outra pessoa, uma entidade ou força extraordinária, concorrem intencionalmente para o seu bem-estar. As diferentes abordagens passam a referir-se à gratidão como "emoção empática", um recurso das forças pessoais positivas, uma virtude ou afecto moral, uma capacidade para reconhecer e apreciar o favor altruísta que foi dispensado, uma característica afectiva positiva.  

O entusiasmo na investigação desta dimensão comportamental é estimulado pelas primeiras evidências empíricas, que associam a gratidão aos resultados físicos e psicológicos positivos, tais como, por exemplo, o aumento do afecto positivo e do comportamento pró-social e, consequentemente, a diminuição do risco de afectação física ou psíquica negativa. A gratidão é avaliada como um dos mais importantes fenómenos existentes numa sociedade, devido a uma característica peculiar, a reciprocidade, que auxilia na construção dos alicerces indispensáveis para a relação e união das pessoas, permitindo que nos entrelacemos uns com os outros saudavelmente. Quem pratica a gratidão apresenta índices mais altos de ligações e mais qualidade nos relacionamentos, quem não tem estas experiências poderá sentir-se só, isolado e desolado.

No estudo da ampla e complexa extensão das relações interpessoais, vai-se confirmando a gratidão como um recurso emocional importante para promover a estabilidade social, para estimular a reciprocidade na interacção humana e para inibir a realização de comportamentos interpessoais destrutivos. As pontuações altas nos instrumentos de avaliação da gratidão aparecem correlacionadas com elevados níveis de comportamento pró-social, empatia e perdão, indicando ainda que a gratidão, em todos estes domínios, revela uma tendência para a acção específica, uma vez que motiva a pessoa que recebeu o benefício a agir pró-socialmente no futuro. No mesmo sentido, se confirma que a gratidão tem a função de promover e preservar os relacionamentos. Assim, a gratidão é comprovada como demostração de apreço pelo que se recebeu, quer seja algo tangível ou intangível, de mais ou de menor valor. Através da gratidão o indivíduo reconhece o que há de bom na sua vida e, nesse processo, compreende que a fonte dessa bondade reside, em parte, fora de si.

A gratidão pode, no entanto, advir de um acontecimento negativo, envolvendo situações traumáticas ou de tragédia, como por exemplo ataques terroristas, desastres naturais, doenças crónicas. As emoções positivas podem emergir de situações adversas e facilitar a resposta pessoal. A identificação dos benefícios nas situações adversas pode influenciar o modo como a pessoa percebe a sua vida. Uma resposta de agradecimento, face às circunstâncias da vida, pode ser uma estratégia psicológica adaptativa e um importante processo, mediante o qual a pessoa interpreta positivamente as suas experiências quotidianas. Gordon et al. (2004), num estudo sobre o impacto dos acontecimentos negativos na vida de crianças e a sua relação com a gratidão, recorrendo à análise do conteúdo das respostas de crianças americanas de 5 a 11 anos, no período em que ocorreu o ataque terrorista de 11 de Setembro, procedendo à análise dos aspectos gerais relacionados com a família, os amigos, a escola e as necessidades básicas, verificam que os resultados apresentaram algumas alterações, no sentido de que aumentam os níveis de expressão da gratidão para com a nação, os seus valores e os seus trabalhadores, em detrimento das suas próprias famílias. Os investigadores  sugerem que a gratidão expressa por estas crianças reflecte a capacidade de empatia diante da tragédia, concluindo que as emoções morais positivas podem emergir de situações adversas, bem como podem facilitar o encarar dessas situações.

Globalmente esta dimensão comportamental da gratidão apresenta a mais-valia de nos proteger dos efeitos das emoções de cariz negativo, como sejam os conflitos, a inveja e o ressentimento e, conjuntamente, parece contribuir para melhorar os sentimentos de amizade e delicadeza, uma vez que se quer o melhor e se dá, por meio da gratidão, o que é justo a quem nos fez bem.

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