Na década de 80 assistiu-se
ao nascimento de uma "nova" psicologia que direccionou a reflexão e o
esforço empírico para as dimensões positivas do comportamento humano. A Psicologia
Positiva, impulsionada por Martin Seligman, Christopher Peterson, Stephen
Schueller, Mónica Ardelt, Robert Emmons, Paul Baltes… e tantos outros, passa a
apresentar-se como a ciência e as respectivas aplicações que relacionam o
estudo das forças psicológicas e das emoções positivas, percebidas e orientadas
no sentido de proporcionarem "uma vida boa". Num movimento
contrário aos tantos domínios que na investigação psicológica e intervenção
terapêutica, ao longo de décadas, sistematicamente atenderam e destacaram os
aspectos negativos do comportamento humano, a psicologia positiva avança com a
sinalização, o estudo e a promoção das dimensões positivas do comportamento,
das forças e das virtudes humanas, tais como a felicidade, a sabedoria, a
resiliência, o optimismo, a compaixão, a esperança, a gratidão...
Este novo movimento da
ciência psicológica reconhece a gratidão no espaço das dimensões saudáveis e
positivas do desenvolvimento humano, definindo-a como uma emoção que se revela
no acto do reconhecimento de um benefício, ou seja, quando uma pessoa toma consciência
de que outra pessoa, uma entidade ou força extraordinária, concorrem
intencionalmente para o seu bem-estar. As diferentes abordagens passam a
referir-se à gratidão como "emoção empática", um recurso das
forças pessoais positivas, uma virtude ou afecto moral, uma capacidade para
reconhecer e apreciar o favor altruísta que foi dispensado, uma característica
afectiva positiva.
O entusiasmo na investigação
desta dimensão comportamental é estimulado pelas primeiras evidências
empíricas, que associam a gratidão aos resultados físicos e psicológicos
positivos, tais como, por exemplo, o aumento do afecto positivo e do
comportamento pró-social e, consequentemente, a diminuição do risco de
afectação física ou psíquica negativa. A gratidão é avaliada como um dos mais
importantes fenómenos existentes numa sociedade, devido a uma característica
peculiar, a reciprocidade, que auxilia na construção dos alicerces
indispensáveis para a relação e união das pessoas, permitindo que nos
entrelacemos uns com os outros saudavelmente. Quem pratica a gratidão apresenta
índices mais altos de ligações e mais qualidade nos relacionamentos, quem não
tem estas experiências poderá sentir-se só, isolado e desolado.
No estudo da ampla e
complexa extensão das relações interpessoais, vai-se confirmando a gratidão
como um recurso emocional importante para promover a estabilidade social, para
estimular a reciprocidade na interacção humana e para inibir a realização de
comportamentos interpessoais destrutivos. As pontuações altas nos instrumentos
de avaliação da gratidão aparecem correlacionadas com elevados níveis de
comportamento pró-social, empatia e perdão, indicando ainda que a gratidão, em
todos estes domínios, revela uma tendência para a acção específica, uma vez que
motiva a pessoa que recebeu o benefício a agir pró-socialmente no futuro. No
mesmo sentido, se confirma que a gratidão tem a função de promover e preservar
os relacionamentos. Assim, a gratidão é comprovada como demostração de apreço
pelo que se recebeu, quer seja algo tangível ou intangível, de mais ou de menor
valor. Através da gratidão o indivíduo reconhece o que há de bom na sua vida e,
nesse processo, compreende que a fonte dessa bondade reside, em parte, fora de
si.
A gratidão pode, no entanto,
advir de um acontecimento negativo, envolvendo situações traumáticas ou de
tragédia, como por exemplo ataques terroristas, desastres naturais, doenças
crónicas. As emoções positivas podem emergir de situações adversas e facilitar
a resposta pessoal. A identificação dos benefícios nas situações adversas pode
influenciar o modo como a pessoa percebe a sua vida. Uma resposta de
agradecimento, face às circunstâncias da vida, pode ser uma estratégia
psicológica adaptativa e um importante processo, mediante o qual a pessoa
interpreta positivamente as suas experiências quotidianas. Gordon et al.
(2004), num estudo sobre o impacto dos acontecimentos negativos na vida de
crianças e a sua relação com a gratidão, recorrendo à análise do conteúdo das
respostas de crianças americanas de 5 a 11 anos, no período em que ocorreu o
ataque terrorista de 11 de Setembro, procedendo à análise dos aspectos gerais
relacionados com a família, os amigos, a escola e as necessidades básicas,
verificam que os resultados apresentaram algumas alterações, no sentido de que
aumentam os níveis de expressão da gratidão para com a nação, os seus valores e
os seus trabalhadores, em detrimento das suas próprias famílias. Os
investigadores sugerem que a gratidão expressa por estas crianças
reflecte a capacidade de empatia diante da tragédia, concluindo que as emoções
morais positivas podem emergir de situações adversas, bem como podem facilitar
o encarar dessas situações.
Globalmente esta dimensão
comportamental da gratidão apresenta a mais-valia de nos proteger dos efeitos
das emoções de cariz negativo, como sejam os conflitos, a inveja e o
ressentimento e, conjuntamente, parece contribuir para melhorar os sentimentos
de amizade e delicadeza, uma vez que se quer o melhor e se dá, por meio da
gratidão, o que é justo a quem nos fez bem.

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