“Utilizar
a inteligência espiritual significa viver conforme às convicções ontogénicas .”
Vaughan, 2002
Assumindo os princípios defendidos por Howard Gardner, mundialmente conhecido
pela teoria das inteligências múltiplas, inúmeros estudos têm comprovado a
existência de uma “inteligência espiritual - IES”. A inteligência humana tem
uma faceta espiritual e a espiritualidade dispõe de uma inteligência, que é
percebida como “ultimate concern”, a
capacidade de projecção na transcendência, de relação com o que está no fim de
tudo, a essência da verdade (Alves, 2011; Emmons, 2000; Ronel, 2008; Sisk
& Torrance, 2001; Zohar & Marshall, 2001)
As investigações,
direccionadas para a análise da relação entre a inteligência, a fé e o modo espiritual
de vida, concebem a espiritualidade como um assunto da vida real, um centro a
partir do qual e para o qual giram as pessoas e as culturas. Numa aproximação
teísta, sem aderência à especificação religiosa, a espiritualidade projecta a
condição humana no transcendente, o sentido último. A espiritualidade é, acima
de tudo, confirmada como um modo de vida.
Distinta, com um conjunto
de habilidades específicas e competências, a inteligência espiritual revela-se, segundo Robert Emmons (2000), através
de cinco componentes operacionais: a capacidade de transcendência; a capacidade
para alcançar estados espiritualmente elevados; a capacidade de investir em
actividades, eventos e relações com carácter sagrado; a habilidade de utilizar
recursos espirituais para a resolução de problemas da vida e a capacidade de
ser virtuoso e de se comportar efectivamente como tal. A inteligência
espiritual aparece ainda como fé, humildade, gratidão, posicionamento holístico,
habilidade para regular emoções e disponibilidade para o perdão e o amor.
Esta
inteligência reporta-se a um desenvolvimento pleno de sentido e de valor, razão
última da existência. Será, portanto, uma forma inteligente da pessoa se
posicionar e de se relacionar, teórica e praticamente, com a essência vital. A
experiência de compreensão da realidade permite a criação de relações que
integram e interligam num todo “espiritual” as dimensões da motivação, as
emoções e a inteligência. A inteligência espiritual aparece como um conjunto de
habilidades e competências que fazem parte do conhecimento adaptativo
relativamente à problemática da vida (Smutny, 2001); é a inteligência que responde à necessidade
de significado, de propósitos reais e valores mais elevados, às questões
fundamentais da vida.
Encontra-se na inteligência espiritual o poder de proporcionar um sentido de vida. Níveis altos de inteligência espiritual correlacionam
com a flexibilidade, com a consciência do “self”, a capacidade excepcional de enfrentar e transcender a dor. Trata-se da
inteligência com que enfrentamos e resolvemos problemas de significado e de valor;
a inteligência com que podemos colocar os nossos actos e a nossa vida num
contexto mais amplo, mais rico e significativo; a inteligência com que podemos
determinar que uma acção e opção existencial é mais importante do que outra.
Reportando-se a um
conjunto de investigações no domínio neurológico, psicológico e antropológico,
Zohar e Marshall (2001) apontam a inteligência espiritual como suporte da
capacidade de ser flexível, activa e espontaneamente adaptável; possuir um
nível alto de consciência de si mesmo; uma capacidade excepcional de enfrentar
e utilizar o sofrimento; a qualidade de se deixar orientar por valores; a
relutância em causar danos e sofrimento nos outros; a tendência para a apreciar
a relação entre as coisas; inclinação para estar constantemente
a perguntar-se “porquê” e ser aquilo que os psicólogos designam como
“independente de campo”, ou seja, possuir uma facilidade para estar contra as
convenções.
Este tipo de inteligência
exige que sejamos honestos connosco próprios, requer que assumamos frontalmente
as opções, mesmo quando nos damos conta que elas são difíceis. Níveis elevados
de IES pressupõem uma intensa integridade pessoal, exigem que estejamos
conscientes da essência profunda do nosso ser e vivamos transcendendo todos
aqueles fragmentos que polarizam a nossa vida. Trata-se do tipo de inteligência
que nos apoia na reconstrução pessoal após os acontecimentos dolorosos e de
elevada densidade destruturante. Exige de nós uma atitude de total e permanente
abertura à novidade, de recuperação da capacidade de encarar a vida e os outros
com a atitude pura e genuína de uma criança. É, igualmente, o tipo de
inteligência que nos afasta do refúgio do nosso saber e que nos impulsiona a
apreendermos constantemente aquilo que não sabemos, exigindo que vivamos mais das
perguntas do que das respostas.
Alves, P. (2011). A Sabedoria: Definição, Multidimensionalidade e Avaliação. Lisboa:Instituto Piaget.
Emmons, R. (2000). Is Spirituality an Intelligence? Motivation, Cognition, and the Psychology of Ultimate Concern. The International Journal For The Psychology of Religion, 10 (1), 3-25.
Emmons, R. (2000). Is Spirituality an Intelligence? Motivation, Cognition, and the Psychology of Ultimate Concern. The International Journal For The Psychology of Religion, 10 (1), 3-25.
Ronel, N., (2008). The Experience of Spiritual Intelligence. The Journal of Transpersonal Psychology,
40 (1), 100-119.
Sisk, D. & Torrance, E. (2001). Spiritual
Intelligence: Developing higher consciousness. Buffalo: Creative Education
Foundation Press.
Smutny, J. (2001). Spiritual Intelligence: Developing
higher consciousness. Roeper Review, 24 (1), 40-41.
Vaughan, F. (2002). What is spiritual intelligence? Journal
of Humanistic Psychology, 42 (2), 16-33.
Zohar, D. & Marshall, N. (2001). Inteligencia
Espiritual. Barcelona: Plaza & Janés Editores.

Caro Paulo, acabei de tomar conhecimento do teu Blog através de um post na linha de tempo do Facebook da nossa cara Catarina Rivero. Resolvi conferir e fiquei maravilhado e comovido pela tua sensível e preciosa Inteligência Espiritual aqui proposta! Parabéns! AbraLaços e muitos êxitos para o teu ¨Psykhé e Pneuma¨!
ResponderEliminarObrigado pelo apreço Arthur Moreira...
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