sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL

Utilizar a inteligência espiritual significa viver conforme às convicções ontogénicas .
                                                                                                               Vaughan, 2002


Assumindo os princípios defendidos por Howard Gardner, mundialmente conhecido pela teoria das inteligências múltiplas, inúmeros estudos têm comprovado a existência de uma “inteligência espiritual - IES”. A inteligência humana tem uma faceta espiritual e a espiritualidade dispõe de uma inteligência, que é percebida como “ultimate concern”, a capacidade de projecção na transcendência, de relação com o que está no fim de tudo, a essência da verdade (Alves, 2011; Emmons, 2000; Ronel, 2008; Sisk & Torrance, 2001; Zohar & Marshall, 2001)
As investigações, direccionadas para a análise da relação entre a inteligência, a fé e o modo espiritual de vida, concebem a espiritualidade como um assunto da vida real, um centro a partir do qual e para o qual giram as pessoas e as culturas. Numa aproximação teísta, sem aderência à especificação religiosa, a espiritualidade projecta a condição humana no transcendente, o sentido último. A espiritualidade é, acima de tudo, confirmada como um modo de vida.
Distinta, com um conjunto de habilidades específicas e competências, a inteligência espiritual revela-se, segundo Robert Emmons (2000), através de cinco componentes operacionais: a capacidade de transcendência; a capacidade para alcançar estados espiritualmente elevados; a capacidade de investir em actividades, eventos e relações com carácter sagrado; a habilidade de utilizar recursos espirituais para a resolução de problemas da vida e a capacidade de ser virtuoso e de se comportar efectivamente como tal. A inteligência espiritual aparece ainda como fé, humildade, gratidão, posicionamento holístico, habilidade para regular emoções e disponibilidade para o perdão e o amor.
 Esta inteligência reporta-se a um desenvolvimento pleno de sentido e de valor, razão última da existência. Será, portanto, uma forma inteligente da pessoa se posicionar e de se relacionar, teórica e praticamente, com a essência vital. A experiência de compreensão da realidade permite a criação de relações que integram e interligam num todo “espiritual” as dimensões da motivação, as emoções e a inteligência. A inteligência espiritual aparece como um conjunto de habilidades e competências que fazem parte do conhecimento adaptativo relativamente à problemática da vida (Smutny, 2001); é a inteligência que responde à necessidade de significado, de propósitos reais e valores mais elevados, às questões fundamentais da vida.
Encontra-se na inteligência espiritual o poder de proporcionar um sentido de vida. Níveis altos de inteligência espiritual correlacionam com a flexibilidade, com a consciência do “self”, a capacidade excepcional de enfrentar e transcender a dor. Trata-se da inteligência com que enfrentamos e resolvemos problemas de significado e de valor; a inteligência com que podemos colocar os nossos actos e a nossa vida num contexto mais amplo, mais rico e significativo; a inteligência com que podemos determinar que uma acção e opção existencial é mais importante do que outra.
Reportando-se a um conjunto de investigações no domínio neurológico, psicológico e antropológico, Zohar e Marshall (2001) apontam a inteligência espiritual como suporte da capacidade de ser flexível, activa e espontaneamente adaptável; possuir um nível alto de consciência de si mesmo; uma capacidade excepcional de enfrentar e utilizar o sofrimento; a qualidade de se deixar orientar por valores; a relutância em causar danos e sofrimento nos outros; a tendência para a apreciar a relação entre as coisas; inclinação para estar constantemente a perguntar-se “porquê” e ser aquilo que os psicólogos designam como “independente de campo”, ou seja, possuir uma facilidade para estar contra as convenções.
Este tipo de inteligência exige que sejamos honestos connosco próprios, requer que assumamos frontalmente as opções, mesmo quando nos damos conta que elas são difíceis. Níveis elevados de IES pressupõem uma intensa integridade pessoal, exigem que estejamos conscientes da essência profunda do nosso ser e vivamos transcendendo todos aqueles fragmentos que polarizam a nossa vida. Trata-se do tipo de inteligência que nos apoia na reconstrução pessoal após os acontecimentos dolorosos e de elevada densidade destruturante. Exige de nós uma atitude de total e permanente abertura à novidade, de recuperação da capacidade de encarar a vida e os outros com a atitude pura e genuína de uma criança. É, igualmente, o tipo de inteligência que nos afasta do refúgio do nosso saber e que nos impulsiona a apreendermos constantemente aquilo que não sabemos, exigindo que vivamos mais das perguntas do que das respostas.
                                                                                                         
Alves, P. (2011). A Sabedoria: Definição, Multidimensionalidade e Avaliação. Lisboa:Instituto Piaget.
Emmons, R. (2000). Is Spirituality an Intelligence? Motivation, Cognition, and the Psychology of Ultimate Concern. The International Journal For The Psychology of Religion, 10 (1), 3-25.
Ronel, N., (2008). The Experience of Spiritual Intelligence. The Journal of Transpersonal Psychology, 40 (1), 100-119.
Sisk, D. & Torrance, E. (2001). Spiritual Intelligence: Developing higher consciousness. Buffalo: Creative Education Foundation Press.
Smutny, J. (2001). Spiritual Intelligence: Developing higher consciousness. Roeper Review, 24 (1), 40-41.
Vaughan, F. (2002). What is spiritual intelligence? Journal of Humanistic Psychology, 42 (2), 16-33. 
Zohar, D. & Marshall, N. (2001). Inteligencia Espiritual. Barcelona: Plaza & Janés Editores.

2 comentários:

  1. Caro Paulo, acabei de tomar conhecimento do teu Blog através de um post na linha de tempo do Facebook da nossa cara Catarina Rivero. Resolvi conferir e fiquei maravilhado e comovido pela tua sensível e preciosa Inteligência Espiritual aqui proposta! Parabéns! AbraLaços e muitos êxitos para o teu ¨Psykhé e Pneuma¨!

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