Na verdade, ao longo dos séculos os fenómenos alucinatórios foram matéria de numerosas controvérsias e, ainda hoje, estão por resolver diversas questões de natureza conceptual e de comprovação empírica (Lages, 1916; Luque, 2007; Sacks, 2012), entre as quais nos merece particular atenção a possibilidade de existirem alucinações compatíveis com a lucidez e a objectividade da razão. Desde a ancestralidade, em que as alucinações estavam integradas nas características da cultura e às suas manifestações era atribuído grande significado, atendendo a que eram assumidas como portadoras de importantes mensagens sobre o sujeito e sobre o mundo, não raro provenientes do mundo transcendente; passando pelo pensamento filosófico grego, segundo o qual a alucinação era parte de um estado de loucura, ou pela conotação religiosa negativa (demoníaca) que assumiu ao longo da Idade Média; até ao início da história moderna da alucinação, possível após o aparecimento do enquadramento clínico para as doenças mentais e a abordagem mais humana às enfermidades, em que se estabelece a sua classificação como percepção sem objecto… em todas as épocas podemos colher a diversidade das perspectivas e das abordagens, assim como das intensas problemáticas que a envolvem.
Na tentativa de traduzir o âmago deste constructo, o conhecimento enciclopédico sobre o comportamento humano, considerando a diversidade da população que afecta e das situações em que se manifesta, ensaia a definição da alucinação a partir do espaço da percepção sem objecto. Assim, a alucinação apresenta-se como uma convicção interior produzida por uma sensação interiormente percebida, ou seja, sem que exista qualquer objecto real ou agente exterior a despoletar a sensação através dos sentidos. Tratando-se de uma experiência sensorial, com ou sem insight, a alucinação define-se como uma percepção sensorial que disponibiliza uma sensação real, como se de uma comum percepção se tratasse, mas que na verdade ocorre sem qualquer movimento de estimulação (externa) dos órgãos sensoriais. Perpassa o princípio de que, no espaço informativo contínuo e implícito das dinâmicas interna e externa, as nossas percepções são essencialmente interpretações e construções mentais, mais do que registos “nus e crus” da realidade.
A incidência desta descrição enciclopédica extraída a partir das ciências da saúde afirma, no mesmo sentido, que a alucinação é uma percepção sensorial que não se origina a partir de um estímulo externo e que pode afectar qualquer um dos sentidos, resultando em alucinação auditiva, gustativa, olfactiva, táctil ou visual. Trata-se, portanto, de uma sensação subjectiva que não é precedida de impressão dos sentidos ou percepções sem objecto para perceber, isto é, quando um sujeito afirma ter experimentado uma sensação sem ter contactado através dos sentidos com um objecto exterior capaz de produzir tal sensação, este sujeito está num estado alucinatório. Não se trata, portanto, de falsas sensações ou ilusões dos sentidos, ou percepções erróneas da sensibilidade orgânica, mas de sensações produzidas interiormente e sem o uso dos sentidos.
Neste espaço científico das ciências da saúde, a alucinação beneficiou do contributo singular de Jean-Étienne Esquirol, que ficaria para sempre como uma destacada referência na abordagem à alucinação, após a ter descrito como a convicção íntima de uma sensação realmente percebida pelo sujeito, sem que tivesse estado qualquer objecto real ao alcance dos seus sentidos para activar a sensação. A alucinação aparece como mecanismo associado aos delírios e presente em grande parte das psicoses, interligada com algumas doenças cerebrais, podendo igualmente resultar da ingestão de tóxicos em indivíduos que não são portadores de qualquer doença psiquiátrica. Acrescenta-se ainda a predisposição de alguns tipos de personalidade para a alucinação, podendo estes, em contexto psiquiátrico, obter tratamento psicofarmacológico. Esta interpretação psicopatológica admite que a alucinação provenha de uma afectação da personalidade através da dissolução da consciência, uma dissolução da representação normal dos objectos exteriores: “o sujeito projecta nela os seus próprios sentidos”. Acresce ainda o facto de que a alucinação pode ser provocada por um delírio interno que derive de uma lesão dos receptores sensoriais.
Neste contexto impõe-se a referência do conhecimento disponibilizado pelo Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-IV-TR) que, no Glossário de Termos Técnicos, vai descrevendo a alucinação como uma “percepção sensorial que tem o sentido da realidade de uma percepção real, mas que ocorre sem a estimulação exterior do órgão sensorial correspondente” (p. 819) concluindo, por exemplo, que a característica essencial da esquizofrenia tipo paranóide é a presença de delírios e alucinações auditivas proeminentes no contexto de uma relativa preservação do funcionamento cognitivo e do afecto. Este posicionamento psico-clínico está muito próximo do sentido e do significado que globalmente tem sido atribuído na abordagem à natureza e à história da alucinação, reconhecendo que se trata de uma percepção sensorial que se revela num forte e intenso sentido de percepção de uma realidade, mas que se processa sem que tenha ocorrido qualquer estimulação sensorial externa.
Claro que este posicionamento interpela-nos, particularmente em determinados contextos, como por exemplo o complexo contexto das experiências de natureza espiritual ou religiosa, a questionarmos a correspondência comum e simplista entre o exterior e o real (concreto e objectivo), o interior e o irreal (subjectivo e patológico); o observável (medível) e o real, o invisível (não mensurável) e o fictício. A este propósito apraz-nos repetir (Alves & Barros, 2013, p. 241) que “uma visão espiritual pode ser uma alucinação… pode traduzir-se num engano dos sentidos ou numa percepção deformada de carácter patológico… pode ser uma imagem produzida pela fantasia ou pelo entusiasmo desmedido… pode ser um arquétipo no sentido de Carl Jung e pode até ser uma formação criada por uma clarividência que retrocede no tempo... e, finalmente, pode ser… uma autêntica visão espiritual.”
O DSM-IV-TR apresenta ainda a análise dos diferentes tipos de alucinações, claramente associadas aos diferentes sentidos que sustentam a realidade percepcionada. Assim, descreve-se a alucinação somática como referente à percepção de uma experiência física a partir do interior do corpo; a alucinação táctil que se reporta à percepção do ser tocado ou de que alguém está debaixo da pele; a alucinação visual que envolve a visão de formas definidas ou indefinidas, sem que estas resultem de percepções incorrectas resultantes de estímulos reais exteriores; a alucinação auditiva como a que envolve a percepção dos sons vindos do exterior ou do interior do sujeito; a alucinação gustativa como a que envolve a percepção do sabor e a alucinação olfactiva como a que envolve a percepção do cheiro.
Tratando-se de um fenómeno de difícil objectivação e tradução empírica, importa investirmos na distinção entre alucinação e ilusão, atendendo a que vulgarmente são identificadas num espaço comum, ainda que na abordagem científica à ilusão, contrariamente à alucinação, exista sempre um estímulo exterior que é mal percebido ou mal interpretado. Na alucinação, o sujeito tanto pode conscientemente reconhecer que está a passar por uma experiência sensorial falsa, como pode estar absolutamente convencido de que a origem da experiência sensorial se reporta a uma realidade física concreta e independente. Não se trata, portanto, necessariamente de uma falsa percepção exclusiva de pessoas com perturbação mental. A alucinação, de certa forma, simula a percepção, sendo que as estruturas da percepção localizadas no nosso cérebro activam-se, disponibilizando não apenas imagens e sons, mas intensos estados emocionais.
Voltaremos,
brevemente, a esta temática.
Bibliografia
Alves,
P. & Barros, F. (2013). O Cérebro e a Experiência Espiritual: revisão
crítica da investigação em neuropsicologia. Psicologia,
Educação e Cultura, XVII (1), 225-244.
Lages,
M. (1916). Algumas notas sobre os erros
da percepção. Dissertação inaugural apresentada à Faculdade de Medicina do
Porto.
Luque, R. (2007). Alucinaciones:
Revisión histórica y clínica. Informaciones Psiquiátricas, 189, 7-42. Sacks, O. W. (2012). Hallucinations. New York : Random House Audio Publishing.

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